domingo, 9 de janeiro de 2011

O escritor que entrou para o Guinness


O sino da igreja central anuncia as 6 primeiras horas do dia. No topo da serra da Mantiqueira, o município de Gonçalves aos poucos desperta. O padeiro prepara seus pães, o agricultor cuida de seu plantio. Na mesma hora, um profissional incomum se levanta para mais um dia. Aconchega-se em sua cadeira, liga seus dois computadores, um PC e um laptop, acende o cachimbo e começa a preencher a tela branca de seu monitor com o esboço de uma história que lhe veio à mente em plena noite. Eram 3 da manhã quando ele despertou a mulher, Nicole: “Amor, acorda! Acabei de ter uma ideia para mais um livro. Quero saber o que você acha”.

Madrugadas maldormidas não são raras na vida de Nicole Kirsteller Inoue, mulher do recordista mundial em livros publicados, José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue. Em julho de 2008, Ryoki atingiu a marca de 1.079 livros. Sua mente não descansa. Em plena madrugada, ele não hesita em acordar a esposa para saber se sua fabulosa ideia pode gerar um fabuloso romance.



1980. Rio de Janeiro. Toca a sirene do colégio Imperatriz Leopoldina. Na próxima rua, uma banca de jornais recebe jovens clientes. Folheiam o jornal de esportes, revistas em quadrinhos e uns livrinhos de bolso, muito baratos, com atrativas capas amarelas. Mário Feijó está ansioso
para comprar os novos livros pockets, lançados a cada semana, de James Monroe, Jeff Taylor ou Bill Purse, autores de aventuras de faroeste, espionagem e ação policial, combinação irresistível para qualquer garoto de 12 ou 13 anos da época.

Aos poucos, Feijó e seus amigos notaram que Monroe, Taylor e Purse tinham estilos muito semelhantes de narrativa. Na verdade, não passavam de pseudônimos de um mesmo autor: Ryoki. “Difícil imaginar que um escritor sozinho pudesse produzir tanto. Mais tarde, descobri que ele existia e era o “alter ego” de todos aqueles escritores gringos que líamos para descansar a cabeça da matemática”, relembra Feijó, que hoje, não por acaso, também é escritor. Em 1990, o International Guinness Book of Records já registrava o nome de Ryoki
como o homem que mais escreveu e publicou livros em todo o planeta.

Nos anos 1980, os livros de Ryoki eram tão populares que chegavam a influir na qualidade da vida profissional. Naquela época, uma grande montadora de automóveis decidiu que só contrataria operários que não tivessem o hábito de ler livros de bolso. O motivo: alguns funcionários atrasavam a linha de montagem porque passavam horas a fio, trancados no banheiro, devorando os livros de espionagem de Ryoki. “Se estivesse no lugar do empregador, eu faria o mesmo”, o escritor comenta. “Não vale a pena perder um dia de trabalho por causa
de meus livros!”

Ryoki tem, ele mesmo, uma rotina industrial. Passa, em média, 10 horas por dia afundado em seus dois computadores. Acorda às 6 horas da manhã, vai direto para o escritório. Muitas vezes, às 2 da madrugada, ainda é possível escutá-lo teclando em seu computador. Com esses hábitos férreos, Ryoki, que largou a medicina para se dedicar à literatura, já bateu todos os recordes. Sua produção literária costuma ser comparada à de Georges Simenon, o escritor francês que, com sua imaginação inesgotável, se tornou um dos mais produtivos autores de narrativas policiais. Imaginação? Com 1.079 livros publicados, 70 outros arquivados, contratos assinados com cinco editoras e capaz de escrever quatro livros de uma só vez, Ryoki não atribui seu sucesso à imaginação. “Imaginação? Escrever uma romance é fruto de 98% suor e o resto talento e sorte. É quase um trabalho braçal!”

Conhecido como o “rei dos livros de bolso”, Ryoki já chegou a assinar 95% dos títulos disponíveis no mercado. Logo depois de seu nome entrar para o Guinness Book, ele chegou a merecer uma reportagem de capa no Wall Street Journal. Para produzi-la, o jornalista americano Matt Moffett o desafiou a escrever um romance em apenas 6 horas. Sentou-se ao lado de Ryoki às 11 da noite e só saiu às 5 da manhã, quando o escritor colocou o ponto final na 160ª página de seu romance, Sequestro Fast-Food, publicado pela editora Olho d’Água.

Por exigência de editores que não acreditam na força comercial de nomes brasileiros ou japoneses, Ryoki já teve de usar 38 pseudônimos de origem americana. Por vingança, ele começou a inventar sobrenomes fictícios com significados indecentes. Foi assim que surgiram pseudônimos como James Licker, Steve Buttockiss, Bill Purse e Charles Hardwood. Se um aumento no preço dos originais era recusado, o escritor mais prolífico do mundo usava sua criatividade, também, para se vingar de editores que o contrariavam. “Eu achava uma tradução para o sobrenome de meu editor e dava um jeito de ferrar com o personagem”, sorri vingativo. “Um editor de sobrenome Coelho”, por exemplo, “inspirou o personagem Jack Rabbitt, que sempre se dá mal”, diz, entre uma tragada e outra de seu emblemático cachimbo.

A 190 quilômetros de São Paulo, a pequena Gonçalves, onde Ryoki mora há quatro anos, tem apenas 4.500 habitantes. Lá, todos o conhecem de vista. Mas poucos sabem que aquele homem de ascendência japonesa, olheiras pesadas, cabelos e barba grisalhos, braços curtos e andar elegante embora arqueado, é um recordista mundial de livros. Quando as ideias não fluem, ele se enfia na cozinha. A culinária disputa, ao lado do cachimbo, o primeiro lugar entre seus hobbies favoritos. A mulher Nicole, que é artista plástica e também escritora, está sempre a seu lado: Nicole e Ryoki são parceiros fiéis – quando ele precisa de ideias, sempre consulta a esposa.

Com cômodos largos e móveis antigos, a pequena casa de Ryoki lembra uma fazenda. Ainda assim, o espaço parece insuficiente. Nas paredes brancas, paisagens bucólicas pintadas pela mulher remetem a um passado remoto. Um cheiro forte, mistura de mofo, nicotina e papel velho, impregna o ambiente de seu escritório. “É o verdadeiro aroma da intelectualidade”, brinca. Sua biblioteca, acomodada em velhas estantes de cedro, mal comporta todos os livros que possui. Ao lado de clássicos, muitos manuais de redação e estilo. Mas Ryoki afirma convicto que nunca seguiu nenhum deles.

Metódico, antes de começar um romance sempre faz uma minuciosa pesquisa de campo ou na internet para confirmar a validade de seu projeto. Convencido de que está no caminho certo, só então ele monta um esboço do livro que pretende escrever, esmiuçando detalhes, construindo os personagens, localizando o enredo no tempo e no espaço. Para isso, mantém um banco de dados de cerca de 20 gigabytes em seu computador. Entre seus truques de escritor está o de sempre começar um livro pelo último capítulo. “Assim você já sabe aonde quer chegar e não se perde.”

Os ponteiros se aproximam da meia-noite. Ryoki está no auge de seu processo criativo. Seu olhar se torna cada vez mais intenso e fremente. Está completamente alheio ao choro da neta, às chamadas de telefone e aos latidos de seus seis cães. Não está ali, mas “dentro” de seu livro, em Roma talvez, presenciando uma experiência secreta de cientistas. Copos manchados de café se espalham pela mesa. A Nona Sinfonia de Beethoven enche o ambiente. A música o ajuda a escrever. Aprecia a música erudita, mas, quando está trabalhando em uma narrativa urbana, não dispensa o jazz.

Nas horas vagas, Ryoki ministra cursos de escrita rápida pela internet. É um homem prático. O que não o impede de alimentar um sonho: assistir nas telas de cinema à adaptação de um de seus livros. Ainda não sabe qual o próximo romance que irá escrever. Mas uma coisa ele garante: “Vai vender como pão quente!”

* Perfil publicado na revista Singular, publicação do Itaú Cultural, em dezembro de 2008.

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