domingo, 9 de janeiro de 2011

O fim (dos livros) está próximo?

Jornada Literária de Passo Fundo discute mídia, tecnologia e prenuncia o limiar de uma nova era para as publicações impressas

O fim está próximo, dizem os profetas. Depois do cinema, do vinil, do CD, e até do fim da história, é a vez de o livro sofrer os mais terríveis vaticínios: as discussões sobre o futuro do formato se tornaram onipresentes na 13ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo, este ano marcada pela conexão entre arte e tecnologia. Já na abertura do evento, o holandês Wim Veen fez declarações apocalípticas: “Esqueçam o papel. Nada mais de jornais ou livros impressos.”
Autor de Homo-zappiens: educando na era digital e coordenador da área de educação e tecnologia da Universidade de Tecnologia de Delf, na Holanda, Veen não dá mais que 25 anos para que os livros e jornais de papel possam ser substituídos pelos meios digitais. Para ele, é o tempo que as novas tecnologias demoram para se inserir nos hábitos de uma geração.
Recentemente, na Feira de Frankfurt, na Alemanha – maior evento do mercado editorial mundial – 2018 foi apontado como o ano zero do domínio digital sobre o papel. A pesquisa envolveu 840 pessoas que mantêm relação estreita com o objeto livro: editores, livreiros, jornalistas e escritores. Ao vaticínio somou-se a chegada ao Brasil do Kindle, leitor eletrônico que a Amazon lançou em uma versão internacional para mais de 100 países.
Se o anúncio do fim do livro causou frisson na feira alemã, no encontro de Passo Fundo não podia ser diferente. O escritor de livros juvenis – por enquanto, de papel – Pedro Bandeira, homenageado da Jornada, vê com bons olhos as novas tecnologias e concorda com Wim Veen ao acreditar que algum dia o papel possa ser substituído. Mas não em um mero quarto de século.
“Por enquanto o livro digital ainda é uma novidade, acho que vai demorar muito para ser popular no Brasil”, diz Bandeira. “E o livro continuará a existir, mas de outra forma. O que pode mudar é o papel, o suporte.”

Bandeira aponta também a questão da durabilidade dos meios digitais: “Dizem que o tempo de vida útil de um CD é de cinco anos e estão querendo aumentar para 50. Não se sabe de quanto será a do livro digital. Enquanto isso, não se pode esquecer que ainda existem 50 bíblias impressas pela prensa manual de Gutemberg em 1480. Todas absolutamente perfeitas!”, enfatiza o escritor.
Independentemente do suporte, ler é uma prática social. É no que acredita Eloy Martos Núñez, doutor em filologia e professor na Universidade de Extremadura, na Espanha. Para ele, o livro implica em sequencialidade. Familiarizadas com o hipertexto e a interatividade da internet, as novas gerações terão dificuldades em aceitar essa linearidade.
“Hoje a cultura letrada tende a desprezar a digital. Vivemos em uma época de síntese e câmbio, por isso acho que o livro como conhecemos deverá buscar outras possibilidades para esses novos leitores que estão emergindo”, acredita Núñez.
Para o teórico, o livro de papel é apenas um artefato físico como outro qualquer. Sua desaparição (ou sua permanência) não terá influência na arte de escrever: “Os livros não são a literatura. A literatura é anterior aos livros, e portanto será posterior a eles.”
Há quem discorde da tese do desaparecimento. Também presente à Jornada, o escritor mexicano Guilhermo Arriaga, autor de O búfalo da noite e Esquadrão guilhotina, acredita que o livro impresso é um objeto que tem muitas vantagens em relação ao digital.
“Há algo mais perfeito do que isso?”, pergunta ele, segurando um livro de bolso. “Mesmo que em um aparelho eletrônico possam caber 50 livros, eu não posso fazer o que quiser com ele. Não posso fazer isso, por exemplo”, diz, largando o livro (que nada sofreu) no chão.
Já Cristóvão Tezza, o novo ganhador do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura por seu romance O filho eterno, é cuidadoso ao falar do suposto fim do livro: “Deve-se evitar um certo triunfalismo digital, em que todos nós seremos como máquinas. O livro de papel é um objeto tão bem bolado que seu uso ainda vai permanecer por muitos séculos. De forma alguma o uso do livro digital vai eliminar o livro impresso. Creio que eles serão meios concomitantes. Mas imaginar que, daqui a 25 anos, teremos 190 milhões de Kindles nas mãos dos brasileiros é uma piada.”
Do ponto de vista do futuro da literatura nos meios digitais, Tezza acredita que pode haver alguns gêneros que se adaptem melhor ao formato digital, como os livros de autoajuda ou os best seller de consumo rápido. Muito se falou sobre a interatividade dos meios digitais em relação à aparente “passividade” do livro. Para Tezza, ela é só aparente mesmo. Por exemplo, se alguém ler a frase “Ele saiu e fechou a porta”, é preciso imaginar quem fechou, suas roupas, o tipo de porta, e como a fechou. A dinâmica da leitura, esta sim, é altamente interativa.
“Ainda acho que um livro repleto de ilustrações e texturas ainda é sensorialmente mais interessante para as crianças que um livro digital sem graça”, completa o escritor.
Elas que o digam. Apesar de todo o clima digital – em que até um “robô-livro” criado pelos alunos de engenharia da Universidade de Passo Fundo apareceu para as crianças – a festa mesmo foi a do livro impresso, que ainda desperta interesse nos mais jovens.

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