domingo, 9 de janeiro de 2011

Paul Auster brinca com verdades e mentiras


Como contar uma história de natal sem cair no sentimentalismo meloso e por vezes hipócrita geralmente associado à ocasião? Foi o que o escritor americano Paul Auster se propôs a fazer em Conto de Natal de Auggie Wren (Cia das Letras, 48 pp., R$ 36), edição especial com ilustrações da artista argentina Isol.

Perto do Natal, um jornalista do The New York Times telefonou para Paul – um escritor com o mesmo prenome de Auster – solicitando um conto por encomenda. Aflito com o desafio, pois nunca escrevera algo do gênero, Paul pede ajuda ao balconista Auggie Wren, "um sujeitinho estranho que usava um suéter azul com capuz" e trabalhava em uma tabacaria no Brooklyn. Até lhe pedir uma história de Natal, Auggie era apenas o cara do balcão para Paul. “Um conto de natal?”, perguntou Auggie. “É só isso? Se me pagar um almoço, meu amigo, vou contar para você a melhor história de Natal que já ouviu. E garanto que cada palavra dessa história é pura verdade”.

Auggie Wren é um personagem apaixonante, austero e cínico. Parece ser a pessoas mais improvável a relatar uma história de natal. No entanto, Auggie inicia uma história enigmática que deixa Paul e um leitor mais atento confuso. No verão de 72, uma rapazinho entrou na tabacaria e rouba um pocket book. "Nunca vi um ladrão de loja mais patético", conta Auggie.

Após perseguí-lo por meio quateirão, percebeu que o rapaz tinha deixado cair sua carteira cujas fotos revelavam a infância feliz de um garoto pobre. Por não ter nada mais interessante para fazer no natal, Auggie decide fazer uma boa ação e vai devolver a carteira ao garoto. Chegando lá, ele é atendido por uma velha cega que diz: "É você, Robert?". Sem negar, Auggie passa o natal com a velha, provavelmente o último.

Depois do relato insólito envolvendo fotografias e sentimentos de culpa, Paul chega a desconfiar de um sorriso maldoso que se espalhava no rosto de Auggie. Será que toda aquela história não passava de invenção? Ainda não sendo verdade, é quase impossível não ser envolvido pela narrativa de Auggie - que o próprio nome não passa de uma alcunha literária. Como a literatura, em que a verosimilhança está acima da veracidade. Mas conclui: "Enquanto houver uma pessoa que acredite, não existe história que não possa ser verdadeira".

O conto já inspirou até o diretor Wayne Wang, que fez o filme Cortina de Fumaça (Smoke) lançado em 1995. Publicado originalmente em 1990, Conto de natal de Auggie Wren apenas comprova toda já consagrada maestria literária de Auster que, com uma narrativa simples mas intensa, consegue mais que desafiar o senso comum, relata uma história incrivelmente bela.
*Matéria publicada em 10 de outubro de 2009.

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