sábado, 12 de fevereiro de 2011

As mil e uma histórias deTahir Shah

O escritor anglo-afegão lança no Brasil seu segundo livro sobre a cultura oral árabe e o exército de demônios que habita sua casa em Casablanca, no Marrocos

Histórias que contam histórias – e, dentro delas, mais histórias em uma trama infinita. O caminho do clássico As mil e uma noites é o mesmo que Tahir Shah percorre em seu novo livro, Nas noites árabes: uma caravana de histórias, que dá continuidade a A casa do Califa, lançado no Brasil em 2008 e apontado como um dos 10 melhores de 2006 pela revista Time.

Trata-se de um livro de viagem, mas passa longe de um guia turístico. Pouco conhecido no Brasil, o gênero abarca livros como Um ano na Provence, de Peter Mayle, e Sob o sol da Toscana, de Frances Mayes. Assim como A casa do Califa, Nas noites árabes é um mergulho profundo e divertido na cultura islâmica, desvendando os costumes locais e suas lendas.

– Para mim, bons livros de viagem são aqueles que entendem e explicam o lugar – defende Tahir Shah. – Eles não dizem como você tem que ir de A para B ou onde comer ou se hospedar. Mas, antes, retiram o véu de uma cultura e a decifram. Dizem como as pessoas são de um jeito que os guias turísticos nunca chegam a alcançar.



Nascido em Londres mas criado em uma família anglo-afegã com raízes nas fortalezas montanhosas de Hindu Kush, na fronteira do Afeganistão com o Pasquistão, Tahir Shah cresceu ouvindo as histórias de Sherazade – a hipnótica narradora de As mil e uma noites – contadas por seu pai, Idriss Shah, também escritor, diplomata e filósofo. A magia das histórias do mundo árabe o marcaram tanto que, aos 36 anos, Tahir se lançou em uma aventura: abandona a capital inglesa e investe todo o dinheiro que ele e sua mulher de origem indiana, Rachana, haviam reunido para comprar Dar Khalifa, uma mansão em ruínas de frente para o mar de Casablanca, no Marrocos. A casa, que pertencera ao califa, líder espiritual da cidade, é onde ele mora hoje:

– Havia muitas razões para deixar Londres. A chuva, a chuva e a chuva são três. E a comida sem gosto, a mentalidade e o frio são mais três. Peço desculpas aos ingleses que por acaso leiam isso. Comprar Dar Khalifa foi sem dúvida um grande desafio. Eu estava arrancando minha família e embarcando numa grande aventura. Se pensássemos demais, nunca teríamos deixado Londres.

Alguns personagens de A casa do Califa continuam presentes em Nas noites árabes, principalmente os djins, um exército de espíritos invisíveis. Se no Ocidente uma casa que ficou fechada durante anos pode atrair invasores, no Marrocos existe a ameaça de uma força muito mais turbulenta. O Corão diz que, quando Deus criou o homem do barro, moldou uma segunda forma de vida do “fogo sem fumaça”, os gênios djins, que vivem ao redor em objetos inanimados. Alguns são amistosos, mas a maioria é perversa. Quando estranhas marcas aparecem na porta da frente, os caseiros e criados de Dar Khalifa têm certeza de que foram os djins e insistem na constante limpeza e purificação do lugar.

– Os djins são levados a sério no mundo islâmico – explica o escritor. – Não são fantasmas, mas parte desse submundo que está presente nas tradições culturais, até mesmo em nossa era científica. E não são tão diferentes de nossa cultura. Mesmo não acreditando mais em fadas, minha filha Ariane, de 8 anos, gosta de deixar pequenos presentes sob o travesseiro. É totalmente errado acreditar que perdemos as crenças no Ocidente.

A tradição oral de contar histórias é muito presente no Marrocos. É comum encontrar contadores de histórias pelas praças ou ruas de Marrakesh. Mas muito dessa tradição está sendo perdida atualmente, devido à presença da televisão. Em Nas noites árabes, o autor fala sobre a influência das novelas egípcias na cultura marroquina e como ela está minando os contadores de histórias que, apesar disso, conseguem sobreviver.

– Os contadores de histórias estão, sim, desaparecendo. Isso é trágico – lamenta Tahir. – Eles são uma enciclopédia de conhecimento e suas histórias, um tesouro. Dar a uma criança As mil e e uma noites é como dar a chave para entender a raça humana.

À procura dos poucos que ainda há no Marrocos, Tahir conhece contadores de histórias que o instigam a procurar a sua própria, seguindo um mito berbere segundo o qual “cada um tem uma história em seu coração”.

Diretor de documentários, fotógrafo e jornalista, Tahir acredita que pessoas como ele, de duas origens, possuem a responsabilidade de “mostrar o Oriente para o Ocidente e o Ocidente para o Oriente”. Neste sentido, Nas noites árabes cumpre bem a missão.

*Publicado em 14 de novembro de 2009

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