domingo, 27 de fevereiro de 2011

O desafio da tradução literária


“O desafio da tradução criativa começa no momento em que constatamos que a única língua inteiramente ao nosso alcance é aquela em que de fato pensamos e vivemos”, escreve o tradutor Modesto Carone no livro Lições de Kafka, o qual, além de decifrar os enigmas da obra do escritor tcheco, reflete sobre a atividade do tradutor literário.

Na obra, Carone imagina a situação de um hipotético tradutor nórdico dos “Poema(s) da cabra”, de João Cabral de Melo Neto, diante de um verso como “se a serra é a terra a cabra é pedra”, onde as consoantes duplas parecem encher o verso de pedregulhos, remetendo à aridez do Nordeste brasileiro.

Uma dificuldade desse tipo levou o poeta Robert Frost a afirmar que poesia é aquilo que se perde nas traduções. Não é de hoje que se discute até que ponto pode-se avançar na tradução de uma obra literária, sobretudo quando envolve grandes autores. O tradutor é sempre alvo do velho adágio italiano traduttore, traditore, que relaciona tradutor a traidor. Será mesmo?

Algumas editoras brasileiras estão se esforçado para mostrar que não é bem assim. Na esteira do centenário de morte de Tolstói, a CosacNaify prepara o lançamento, em novas traduções diretas do russo, do clássico Guerra e paz e de Ressurreição, último romance do autor. A Record está para lançar uma coleção de longos romances escritos no século 19, em inglês e só por mulheres: o primeiro título será Silas Marner, de George Eliot.

Responsável pela coleção, a escritora Heloisa Seixas – que trabalha como tradutora desde os 19 anos, tendo no currículo Algernon Blackwood, Edith Wharton, H.P. Lovercraft, O. Henry, Sheridan Le Fanu, H. Rider Haggard – acredita que não se pode inventar na hora de traduzir textos de ficção, mas também não dá para se traduzir tudo ao pé da letra.

– Não se pode inventar, mas não dá para, por fidelidade, ser literal demais. Os dois extremos são pecados mortais – prega Heloisa.

O escritor Rubens Figueredo, especialista na língua russa e tradutor de Gorki, Turgeniev e Tchekhov , também pondera que o excessivo traço personalista na obra pode prejudicar as intenções do próprio autor. 

– A tradução tenta reproduzir as preocupações do original – afirma Rubens. – Mas nem por isso é um trabalho menor. Supor que o tradutor, para ter valor, deve deixar marcas gritantes da sua personalidade no trabalho, a despeito do original, supõe um equívoco, não de caráter técnico, nem teórico, mas de valores humanos: postula que há e deve haver um trabalho subalterno e pessoas subalternas. Mas isso é um problema do regime socioeconômico vigente.

No momento Rubens Figueiredo está mergulhado nas intermináveis páginas de Guerra e paz (já entregou a tradução de Ressurreição, prevista para sair em novembro). No romance épico de Tolstói, a fala dos soldados é rude e agressiva, reproduzindo um linguajar popular próprio da Rússia.

– Esses diálogos são, a rigor, irreproduzíveis em outras línguas por causa do seu poder de síntese – diz ele. – Meu critério foi fazer tais falas soarem enfáticas, bruscas, ríspidas e populares, sem incorporar formas marcadamente contemporâneas ou típicas de falares regionais ou de grupos sociais do Brasil.

O estilo de Tolstói variou muito de um livro para o outro. E, às vezes, ele escrevia ao mesmo tempo obras em estilos diversos. Quando escrevia Ana Kariênina, por exemplo, com suas frases longas e ricas em inversões, fez o conto “O prisioneiro do Cáucaso”, com linguagem seca, crua e despojada. Mesmo Guerra e paz contém em seu vasto panorama uma diversidade de estilos: o expositivo, o narrativo, o nervoso, o pausado, o oral, o densamente retórico, o popular, o cartorial, entre outros. Para Rubens, em casos assim o tradutor precisa ter calma e ser fiel à minúcia do original em cada detalhe.
– Há um trecho em que Tolstói descreve até os fios das crinas dos cavalos numa revista de tropas feita pelos imperadores da Áustria e da Rússia – exemplifica o tradutor. – E não é um luxo, uma futilidade, mas uma crítica: em função do brusco deslocamento da narração, os fios das crinas de um cavalo valem tanto quanto os imperadores.

Trocadilhos são um problema constante. Heloisa Seixas cita o exemplo da canção The road to Morocco, sucesso de Bing Crosby, em que há um verso que diz: “Like Webster’s Dictionary, we’re Morocco bound”. 

– É um jogo de palavras: “Morocco bound” tanto quer dizer “em direção ao Marrocos” quanto “forrado de marroquim”, aquele couro avermelhado dos livros antigos. Como traduzir a frase? “Como o dicionário Webster, somos feitos de marroquim” ou “Como o dicionário Webster, estamos indo para o Marrocos”? – questiona Heloisa. – Ou nenhuma das respostas acima? Provavelmente nenhuma das respostas acima. O ideal é inventar uma piada ou trocadilho que passe o clima. O clima sonoro também é um fator a ser levado em consideração.

O tradutor Boris Schnaiderman – que fez, entre muitas outras, a tradução de Khadji-Murát, novela de Tolstói recém-lançada pela CosacNaify – conta que sempre relê e refaz suas traduções porque considera traduzir literatura um tipo especial de tradução. 

–A língua literária precisa ter ritmo, cadência – comenta ele. – Embora a fidelidade semântica seja importante, para mim, é só uma parte. No caso de traduções indiretas, sempre é mais difícil porque é preciso ter a vivência da língua. Mas às vezes é necessário: se aparecer uma obra em turco, por exemplo. 

Na tradução de Anna Kariênina, Rubens Figueiredo optou por não substituir palavras ou expressões repetidas presentes no original, tática utilizada por muitos tradutores de Tolstói, de modo a suavizar o texto. Mas a constante repetição de palavras, para o tradutor, tem a ver com as peculiaridades estratégicas de coesão adotadas pelo escritor.

– Em Guerra e paz, tomo 1, 3ª parte, 6º capítulo, o jovem Nikolai Rostóv se encontra com seu amigo Boris – detalha Rubens. – Por meio da narração que Rostóv faz de suas aventuras nos combates em Schöngraben contra as forças napoleônicas, Tolstói formula uma crítica sutil às pretensões de verdade da narração histórica, pondo em dúvida seu estatuto de reprodução fidedigna dos fatos. É muito relevante o número de vezes que o verbo razkazat (contar) ou palavras com o mesmo radical se repetem: são dezenas de ocorrências em duas páginas e meia. Esse é o tipo de detalhe significativo que uma tradução pode e deve preservar.

Heloisa Seixas acredita que algum tipo de suavização do texto pode de fato trair as intenções do autor, embora em certas línguas, como no inglês, uma adaptação seja necessária.

– Suavizar já é traição – acusa. – Tornar mais acessível, mais fácil, também, mas adaptar é preciso. Cortar palavras e expressões repetidas já acho legítimo, porque em inglês, por exemplo, não é pecado repetir palavras e em português é. Só a sensibilidade do tradutor é capaz de lhe dar discernimento para tomar essas decisões. Não há fórmula mágica.

Proust palatável

Não é o que pensa o poeta Fernando Py, que assina a segunda tradução da grande catedral literária francesa Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Com o objetivo “de tornar mais palatável” o texto do autor francês, Py enfrentou a tradução já consagrada entre nós, publicada no início dos anos 50 pela Globo de Porto Alegre. O poeta Mario Quintana traduziu No caminho de Swann, À sombra das raparigas em flor, O caminho de Guermantes e Sodoma e Gomorra, para só então passar a bola para Manuel Bandeira, que ficou com A prisioneira, em parceria com Lourdes Sousa de Alencar. Carlos Drummond de Andrade se encarregou de A fugitiva, e Lúcia Miguel-Pereira finalizou a tarefa com O tempo redescoberto.

– O principal desafio foi enfrentar os antigos tradutores – confessa Fernando Py. – Se por um lado rivalizar com grandes escritores era um problema, por outro o fato de ser tradutor único deu-me a vantagem de uniformizar o estilo, já que a tradução da Globo prejudicou a uniformidade da obra.

A falta de padronização é reconhecida principalmente quando se compara a tradução dos primeiros quatro volumes. Além do estilo próprio de cada autor que transparece facilmente, Py – que já traduziu mais de 30 livros, entre eles o inacabado romance póstumo de Proust, Jean Santeuil– critica o excesso de expressões gaúchas e lusitanas presentes no texto de Quintana.

– Ele se deixou levar pelo linguajar tipicamente regional, preenchendo as traduções que lhe couberam de gauchismos, além de vocábulos e expressões lusas, como se estivesse elaborando uma tradução para ser lida em Lisboa –comenta, destacando também que a primeira edição da Globo foi feita e lançada antes do aparecimento da edição crítica francesa de Pierre Clarac e André Ferré pela Gallimard, de 1954, deixando a desejar quanto à exatidão do texto.

Sozinho e completo

Único até agora a fazer o trabalho completo e sozinho, Py começou a traduzir a obra a pedido da Ediouro em maio de 1991, e fez apenas uma exigência: a ausência de prazos para a entrega. A fim de reproduzir em português a fluência musical de cada frase, a simetria e as comparações metafóricas – principais desafios em matéria de tradução literária – sem falar da extensão dos parágrafos de Proust, demorou quatro anos para entregar o original completo. A obra foi relançada recentemente em três volumes.

A língua em si não foi um grande obstáculo. Ao contrário de Joyce, Proust utiliza um francês mais acessível, ao não fabricar neologismos nem usar esfoliações de vocábulos.

– Foi um processo demorado, embora eu já me achasse pronto para a tarefa – diz Py, que só para ler Em busca do tempo perdido levou 26 anos. – A tradução de Proust exige um cuidado e uma atenção muito grandes, no sentido de respeitar algumas das características principais do seu estilo: as frases longas, longuíssimas por vezes, a cadência musical dessas frases, com técnica peculiar e pausas significativas.

A busca de Fernando Py foi oferecer uma linguagem mais acessível que acarretaria, consequentemente, maior número de leitores. De imediato pode-se notar a alteração do título À sombra das raparigas em flor para À sombra das moças em flor, justificado pela conotação pejorativa em algumas regiões do Brasil. O último livro, Le temps retrouvé foi traduzido como O tempo recuperado em vez de O tempo redescoberto, usado pela Globo, “pois de modo algum de trata de uma redescoberta”, justifica o tradutor.

*Matéria publicada em 10 de abril de 2010, no Jornal do Brasil.

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