quinta-feira, 10 de março de 2011

Ninguém sabe. Nem Ubaldo.

Nesta entrevista, o escritor baiano fala sobre o romance 'O albatroz azul ', questiona o sentido da vida e da literatura e comenta as recentes mudanças no mercado editorial


Ninguém sabe nada. Eis o ponto de partida para O albatroz azul, primeiro romance de João Ubaldo Ribeiro lançado em sete anos. O livro conta a história de Tertuliano que, por alguma razão, está certo que sua vida vai mudar com a chegada de seu neto, que nasceu virado para a lua. Em 2007, o autor baiano foi para Objetiva mas ficou devendo, por contrato, uma nova obra à Nova Fronteira, que era sua editora havia mais de 20 anos. Nesta entrevista ao Ideias&Livros, João Ubaldo fala, sem medo de nomear as palavras, sobre seu aguardado romance, o mercado editorial e o imponderável da vida.

O albatroz azul é um livro menor no número de páginas em relação a outros de seus romances. O tamanho foi o ideal para contar a história?
– Quando comecei O albatroz azul, eu tinha em mente um livro grandão e comecei a escrever com pegada de um romance grande. Mas no meio do caminho, o livro se recusou a ser grande e se revelou pequeno. Nunca sei direito o que vai acontecer.

Como classificá-lo, romance ou novela?
– Romance, mas não estou muito certo. Não entendo nada de literatura. Sei que li muito. Mas quando sai um livro pequeno, eu fico satisfeito porque pelo menos sei que as pessoas vão ler. Suspeito que se mente muito no meio literário. São poucos que realmente leem um livro grande. Só que O albatroz azul ainda tem o defeito de ter parágrafos longos, porque eu sei que os livros mais lidos são geralmente pequenos e de parágrafos curtos.

Como surgiu a história do avô Tertuliano? Foi inspirada em alguém da Ilha de Itaparica?
– Não sei da onde veio esta história. Tenho idade para ter neto, mas ainda não tenho. Não tenho esse negócio de inspiração. Claro, Tertuliano pode até existir em Itaparica, porque é um personagem verossímil. Já aconteceu de me falarem que fulano, que foi a inspiração para um personagem meu, não é bem assim como descrevo. Não fico pensando na vida de ninguém. Talvez o personagem esteja em meu inconsciente, mas nunca saí por aí tomando notas e pegando alguém como modelo.

Por que a constante presença de Itaparica em sua obra?
– Não sei. É minha terra, quanto mais velho, mais eu fico apegado a ela. A ilha mudou pouco, a casa onde nasci ainda está lá.

O senhor já afirmou que, antes de escrever um livro, primeiro pensa no título, na dedicatória, depois na epígrafe. Foi assim agora?
– Sim, mas não me lembro da onde tirei O albatroz azul, mas quando fui escrever estava lá. Da mesma forma, quando escrevi Viva o povo brasileiro, o título era supostamente baseado em um episódio vivido por meu avô durante o Estado Novo. Mas não me lembro, um dia escrevi o título e comecei a escrever o livro. No meio para o fim do romance – mas posso estar chutando – eu já sabia qual seria o papel do albatroz azul no livro.

E a enigmática epígrafe “Ninguém sabe”?
– Acho que de certa maneira essa frase sintetiza o tema do livro. Tem um nascimento de uma criança “de cu pra lua” – aqui é palavrão, mas em Portugal a expressão é perfeitamente usável em qualquer ambiente – e a história da vida de Tertuliano que muda com a chegada do neto. Acho que a epígrafe se justifica porque o livro é um pouco sobre a inutilidade de querer criar um sentido para a vida, para a existência ou criar uma relação de casualidade entre um fato e outro. É muito comum pessoas afirmarem que alguém está sofrendo um castigo divino. Geralmente ninguém enfrenta um castigo, mas as conseqüências dele.

Tertuliano vê um siri mudar de casca e em seguida uma pedra com a alma de holandês fala com ele. Alguma relação com o poleiro de almas que o senhor criou em Viva o povo brasileiro?
– É a primeira vez que me ocorre a questão. Se tem a ver, será na minha cabeça. Mas por que uma pedra não falaria? Você pode provar que as pedras não falam? É perfeitamente possível você estar em um determinado estado de espírito e achar que a pedra falou com você. Talvez não literalmente. A própria existência da pedra pode dizer alguma coisa e dialogar com sua existência, eu sei lá. Quanto aos holandeses, eles estão presentes na história de Itaparica.

Desde que soube que seu primeiro neto homem ia nascer, Tertuliano tem a certeza de que sua vida vai mudar e de que sua morte está próxima. Por que todo esse determinismo do
personagem?
– Sua certeza vem das crenças que adquiriu ao longo da vida. Tertuliano é considerado um homem sábio, mas na verdade sua sabedoria não alcança a sabedoria divina. Nesse sentido lembra um pouco o Livro de Jó, da Bíblia. Mas não tive a intenção de fazer uma paráfrase. Inicialmente o leitor pode pensar que a história será sobre o neto – até eu pensei nisso – mas não é. É sobre a mudança de vida do avô, que no final já não tem tanta certeza assim, só da morte, a qual não encara como algo terrível, e sim natural.

Qual é a relação entre os nomes dos personagens, sempre emblemáticos como Raymundo
Penaforte, e a trama?
– Escolhi nomes que na época estavam na moda. No interior, na década de 60, era muito importante escolher o nome para o descendente. O livro é simplesmente uma visita a um universo que você conhece mas não frequenta, que não lhe é estranho mas ao mesmo tempo não é seu universo, um universo de valores, de crenças. Nós todos da chamada cidade grande e deste tempo nos esquecemos de dar importância à escolha do nome do filho, como Tertuliano deu.

O livro é uma tentativa de retratar o tipo brasileiro em sua essência?
– Não escrevo com intenção nenhuma de retratar ou defender uma tese, apenas escrevo ficção. É fácil depois do livro escrito relacionar com alguma coisa, mas a princípio não penso nisso. A literatura é sempre de quem lê, não posso controlar o que as pessoas interpretam do livro.

Seu último romance, Diário do farol, saiu em 2002. Por que a demora em publicar outro?
– Quando assinei o contrato com a Nova Fronteira, pensei em um livro sombrio, terrível. Comecei a escrever um sobre a cabeça de um sujeito. Mas o trabalho sofreu muitas interrupções. Livro desanda com o tempo, principalmente romance. Se você começa um romance e para por dois ou três dias, não aguenta mais os personagens, fica sem embocadura, e isso aconteceu não sei quantas vezes. Acho que até já escrevi outro enquanto estava devendo este.

O senhor já afirmou que não sofre de bloqueio criativo. Mas que, com o passar dos ano, os livros vão saindo com mais dificuldade. Que tipo de dificuldade é essa?
– Escritor escreve com dificuldade, quem escreve com facilidade é orador. Rubem Fonseca acha uma lauda por dia muito. Há uma brincadeira de criar unidades com alguns escritores. Dizem que Graham Greene escrevia 500 palavras por dia, já Virgínia Woolf escrevia de mil a 1.200, por aí. Eu costumo escrever um conrad, de Joseph Conrad, que escrevia 800 palavras por dia. Jorge Amado já dizia: “Quando mais velho fico mais devagar sai”, e é verdade. Não sei se é a própria idade. Ou sei lá o que é!

Em 2007, o senhor foi para a Objetiva, depois de ter ficado na Nova Fronteira por mais de 20 anos. A mudança foi muito traumática?
– Fiquei sabendo que a Nova Fronteira tinha sido vendida pelo jornal e tomei um susto, nem sabia quem tinha comprado. Depois de mais de 20 anos de casa, fiquei chocado, dei uma de marido enganado, fui o último a saber. Primeiro, a Nova Fronteira foi vendida de um jeito, depois foi vendida de outro, mudou até de endereço.

O senhor quis trabalhar com sua equipe antiga da Nova Fronteira?
– Trabalhar com a Izabel Aleixo foi minha escolha, porque já conhecia o trabalho dela.

Um escritor trocar de editora é cada vez mais comum, embora não sejam transferências milionárias como a de jogadores de futebol. Como o senhor vê essas mudanças?
– Acho que nenhum escritor gosta de mudar de editora. Só pelo dinheiro, claro, porque escritor ganha mal no Brasil. Se eu fosse o mesmo sucesso nos Estados Unidos, eu já teria sido independente.

O que o senhor acha das recentes mudanças no mercado editorial com a chegada de grupos estrangeiros e a concentração de editoras em grandes grupos?
– É um fenômeno que tem acontecido no mundo inteiro. O problema não é serem empresas estrangeiras, mas serem grandes empresas que transformam o mercado editorial em algo que ele não é. A relação com o autor deixa de ser pessoal e afetiva para ser impessoal. Da mesma forma como as grandes gravadoras que se livram de artistas bons que não vendem, as editoras vão dificultar o caminho para os autores iniciantes, por causa da exigência de dar grana. Mas acho que sempre haverá espaço para a pequena editora, que ainda mantém esse relacionamento com o autor.

O que é um bom editor para o senhor?
– Um bom editor deve conhecer seu ramo bem, ser um homem letrado que possa transitar com facilidade entre o mundo dos artistas e o mundo dos negócios. Ainda acho que a relação entre autores e editores deve ser uma coisa muito pessoal, específica para cada tipo de autor.

*Entrevista publicada em 3 de outubro de 2009.

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