quarta-feira, 5 de março de 2014

Ana Karênina, de Leon Tolstói

O que faz dos clássicos clássicos? Entendidos apontam para uma característica essencial: a universalidade. Mas o que seria isso? Talvez sentir a mesma frustração de um cético russo do século XIX sentiria em busca da verdade? Ou compreender os desejos íntimos de uma mulher encantadoramente entediada? Ou aspirar pelo mesmo caráter de um prisioneiro que não ousa se vingar de seu algoz mesmo ao ter a oportunidade de fazê-lo? Quando a empatia é vigorosa, a percepção é de aprendizado. A literatura parece, de fato, nos ensinar mais sobre a vida do que o ato de viver.

Essa é a sensação ao terminar a leitura do clássico Ana Karênina, de Leon Tolstói. O estilo realista do escritor, capaz de pintar um cenário familiar, com suas intrigas e tensões, dispensa comentários. Sua escrita vai além, penetra nos mais profundos, por vezes assustadores, pensamentos dos personagens, como se estivesse a revelar sua alma. Característica, aliás, própria de grandes autores.

Ana Karênina é, sobretudo, uma história de amor em suas diversas facetas, seja no ambíguo arrendamento romântico seja na complacência necessária do perdão. Enquanto Anna é a personificação do primeiro, seu marido Alieksiei encarna o segundo.

Ana é casada com Alieksiei. É o tipo de mulher que encanta a todos, não somente por sua beleza, mas principalmente por sua educação. E, claro, por seu interesse genuíno pela vida de quem quer que fosse, ricos ou pobres, aristocratas ou camponeses – característica rara mesmo nos dias atuais. Personagem fascinante, Anna conhece o conde Vronsk e logo se apaixona por ele. A relação entre Ana e Alieksiei fica insuportável e a leva à separação.


O grande escritor russo parece compreender todas as engrenagens do coração, do amor e suas diversas nuances. Quando a paixão é nova e fresca, os dois amantes sonham com a felicidade e um radioso futuro juntos. Entretanto, quando tão sonhada reunião acontece, a felicidade almejada precisará lidar com difíceis e amargas realidades, como o ciúme doentio sentido por Ana.


“Aqueles acessos de ciúmes, que ultimamente acometiam Ana com mais frequência, horrorizavam-no. Claro que ainda eram provas de amor, mas nem por isso o assustavam menos, e, conquanto ele não lho mostrasse, arrefeciam o amor que sentia por ela. Muitas vezes dissera para si mesmo que o amor de Ana constituía para ele a felicidade, e agora, que ela o amava como pode amar uma mulher que tudo sacrificou à sua paixão, sentia-se mais longe da felicidade que na época em que abandonara Moscou para a seguir. É que então uma promessa de felicidade brilhava no meio do seu infortúnio, enquanto presentemente os dias de felicidade pertenciam ao passado...” (p. 297)

Durante todo o desenrolar dos acontecimentos, Ana parece estar consciente de seu mal proceder e implora o perdão do marido. A cena em que Alieksiei, sempre zeloso dos princípios cristãos, dá a mão à Vronsk concedendo-lhe verdadeiro perdão está entre as mais belas do livro. O perdão do marido ofendido não lhe vem fácil; antes, com pesar e muito sofrimento.

Apesar de levar o título, o grande romance de Tolstói não é somente sobre essa interessante figura. A história de Liêvin parece correr paralelamente, embora os dois mal tenham se encontrado. Enquanto ela busca no amor respostas para dar sentido às suas escolhas sempre difíceis, ele recorre à razão em sua jornada espiritual.



Com a aproximação da morte de sue irmão Nicolau, Liêvin fica obcecado com a ideia de morte, que para ele era um força invencível. Se o fim de todas as coisas é certo, se a morte é uma certeza, nada vale a pena a pena e nada é possível fazer. Seu niilismo o levou a afirmar: “Tudo é vaidade, mais vale morrer” (p.310). Quem o julga por sua aparência – sempre justo, solícito e trabalhador – não imagina o que passa por sua cabeça nos momentos de desânimo.

Lievin, de todos os personagens do romance, é o único que mergulha fundo nas dúvidas existenciais. “Não posso viver sem saber o que sou e com que fim fui lançado a este mundo”, dizia ele com seus botões. “E, visto que não poderei chegar a sabê-lo, torna-se-me impossível viver. No tempo infinito, na infinitude da matéria, no espaço infinito forma-se um organismo como uma borbulha, mantém-se por algum tempo, depois rebenta. Essa borbulha sou eu!” (p.633)

O amor entre Lievin e Kitty contrasta em essência ao de Ana e Vronski. Ambos não se deixam dominar por uma paixão arrebatadora, embora o amor entre eles seja evidente. Porém, nada aconteceu tão espontaneamente. Liêvin e Kitty se esforçam para nutrir o amor que sentem a cada dia, mesmo conscientes das dificuldades que surgem no decorrer da caminhada. A mensagem é clara: o amor romântico (entre Ana e Vronski) parece sempre a ponto de sucumbir, enquanto o amor profundo (entre Liêvin e Kitty) parece necessitar de alimento diário para sobreviver. Bem realista.

Publicado originalmente em entre 1877, o romance Anna Karênina figura ao lado de Guerra e Paz como uma das obras-primas de Tostói. Já ganhou pelo menos cinco adaptações para o cinema, sendo a última em 2012 dirigida por Joe Wright e adaptado por Tom Stoppard. Indicado ao Oscar de melhor trilha sonora, melhor design de produção, melhor fotografia e melhor figurino, o filme britânico vale-se do ambiente teatral para criar uma atmosfera interessante para a trama. Vale a pena conferir.





ANA KARÊNINA
Autor: Leon Tolstói
Editora: Nova Cultural
Ano: 1995




Um comentário:

  1. Um Clássico emocionante! Com vários dramas paralelos ao enredo principal Tolstói consegue ir fundo em cada personagem, caracterizando cada um de uma forma única e brilhante. Um livro Fantástico!

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