quarta-feira, 5 de março de 2014

O mestre e a Margarida, de Mikhail Bulgákov

Poucos livros valem cada palavra como o clássico moderno O mestre e a Margarida, de Mikhail Bulgákov. Iniciado em 1928, mas só publicado em 1966, depois de mais de vinte anos da morte de seu autor, o livro é um dos mais lidos em toda Rússia, tanto que várias passagens deram origem a provérbios russos. O mais famoso é  “Manuscritos não ardem”.

No entanto, não se restringiu somente à Rússia a influência de O mestre e a Margarida. Salman Rushdie, autor de Os versos satânicos, era fã confesso de Bulgákov; Mick Jagger escreveu a canção “Sympathy for the Devil” após ler o livro e queria até mesmo fazer um filme em que ele seria satã; “Pilate”, do Pearl Jam e “Love and Destroy” do Franz Ferdinand também foram inspiradas em passagens do livro. Há ainda uma ópera inteiramente dedicada à obra do compositor alemão Yourk Holler, Der Meister und Margarita, apresentada em 1989 em Paris.

Não foi à toa que Bulgákov é considerado um escritor satanista. Em 2006, o Museu Bulgákov foi vandalizado por religiosos. A assustadora capa da edição brasileira, feita por Victor Burton, também contribui para essa atmosfera. Há quem não consiga dormir com a capa virada para cima. Outros caem na gargalhada repetidas vezes. Para tremer ou sorrir, ninguém lê o romance de Bulgákov e sai incólume.


Em uma tarde tranquila de primavera, Satanás resolve visitar Moscou. Em seu caminho, encontram um editor de uma revista de arte e um poeta que conversavam animadamente sobre a inexistência de Jesus Cristo. Um homem misterioso entra no papo e pergunta-lhes se não acreditam também Deus. “Se não há Deus, então quem administra a vida humana, e em geral, toda a ordem na terra?”, pergunta o forasteiro. Ao que respondem prontamente: “O próprio ser humano.” “Como é que pode o ser humano governar, se não apenas não tem condições de fazer qualquer plano, mesmo que seja ridiculamente curto de, digamos, uns mil anos, como também é incapaz de garantir sequer seu dia de amanhã?”, contrapõe o homem. E finaliza afirmando que Jesus Cristo existiu porque ele esteve lá.



A partir daí, a narrativa será conduzida por duas frentes: a história com detalhamento digno de um realista russo sobre Pôncio Pilatos e o calvário de Yeshua ha-Notzri (Jesus de Nazaré, em hebraico) e as estripulias cometidas por Satanás e seu séquito diabólico na Moscou ortodoxa no final da década de 1920. E, como é sabido, o Diabo não anda sozinho. Trouxe consigo Behemoth, um bizarro gato preto e gorducho que anda sobre duas patas, adora vodca e espetáculos sombrios; Korôviev, o ardiloso relações públicas do grupo; Azazello, um ruivo de feiura indescritível; e Hella, uma jovem que só anda nua e tem “ardentes olhos fosforescentes”.

A singularidade dos escritos de Mikhail Bulgákov já provocou debates calorosos e  interpretações adversas. Alguns acreditam que trechos e situações do romance são autobiográficos, outros tentam ligar os personagens a pessoas-chaves do regime stalinistas. Embora haja controvérsias, qualquer reducionismo parece ser insignificante para a fruição de uma obra-prima fantástica como O mestre e a Margarida.

Veja essa pequena animação do romance no OpenCulture.

O MESTRE E A MARGARIDA
Autor: Mikhail Bulgákov
Tradução: Zoia Prestes
Editora: Alfaguara
Páginas: 456
Ano: 2009

6 comentários:

  1. Parabéns pelo texto! Colocarei esta obra na minha lista e fatalmente terei o mesmo sombrio prazer.

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  2. "Há quem não consiga dormir com a capa virada para cima" ahahah ;)

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    1. Tem gente que... hahaha. Eu caí na gargalhada várias vezes... Dá vontade de ler de novo! Acho que por isso eu não te devolvi ainda! ;)

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  3. Bulgakov é sem duvida um dos grandes mestres da literatura russa. Fiz uma resenha sobre "O mestre e margarida", porem mais voltada para a interpretação de certos nomes e personagens da obra. Comparei a forma narrativa de Bulgakov a elementos associados ao xadrez (jogo apreciado pelos russos e por um dos personagens) e do jogo de cartas (também algo apreciado por um dos personagens). O foco do meu texto foi esclarecer o significa da utilização do nome "margarida", que no texto da obra não é informado apenas sugerido. Para quem quiser conferir meu trabalho segue o link da minha pagina CAFÉ MUSAIN:

    http://cafe-musain.blogspot.com.br/2016/05/o-mestre-e-margarida.html

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  4. Bulgakov é sem duvida um dos grandes mestres da literatura russa. Fiz uma resenha sobre "O mestre e margarida", porem mais voltada para a interpretação de certos nomes e personagens da obra. Comparei a forma narrativa de Bulgakov a elementos associados ao xadrez (jogo apreciado pelos russos e por um dos personagens) e do jogo de cartas (também algo apreciado por um dos personagens). O foco do meu texto foi esclarecer o significa da utilização do nome "margarida", que no texto da obra não é informado apenas sugerido. Para quem quiser conferir meu trabalho segue o link da minha pagina CAFÉ MUSAIN:

    http://cafe-musain.blogspot.com.br/2016/05/o-mestre-e-margarida.html

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