quarta-feira, 12 de março de 2014

Tradução: There Is No Me Without You, by Melissa Fay Greene

O vento espalhou névoa pela porta da frente. O cômodo de tijolo coberto de cal parecia mergulhar e oscilar como se remássemos um barco açoitado por ondas escuras. Ao meu lado, a viúva mumificada começava a predominar no ambiente aos poucos, à medida que seu xale de algodão se desenrolava.

Levou algumas semanas para me acostumar. Nas longas tardes quando o ar engorda a água em Adis Abeba, os animais da cidade – bodes, ovelhas, burros, cachorros de rua, pica-paus, tordos, andorinhas – dormem de pé em rachas e caramanchões, ou com as cabeças afundadas no dilúvio. Foi nesse momento que desejei subir as escadas para o meu quarto no pequeno hotel Yilma, tirar meus sapados cheios de lama e meias, beber água na garrafa, jogar-me na cama com o livro History of Modern Ethiopia de Bahry Zewde, e dormir enquanto as longas e transparentes cortinas balançam no quarto, entranhado com o cheiro e o peso da chuva.

Mas eu estava presa na cadeira do salão de Haregewoin e não havia como sair. A inércia do grupo me deixou cansada.

– Agora? – todo mundo se agitou e perguntou com espanto. – Você quer ir a algum lugar agora e com este tempo? – Alguns estavam, com certeza, pensando a estrangeira (branca) tem que ir a algum lugar agora? Meu motorista e amigo, Selamneh Techane, que estava inclinado com a cabeça apoiando sobre as mãos, virou e olhou para mim um pouco confuso. Toda vez que eu tentava levantar, a mãe de família ao meu lado livrava-se de mais uma camada de xale. © Taynée Mendes, 2012

Trecho original em inglês:


The wind sprayed mist through the open door. The whitewashed brick room seemed to dip and sway as if we rode a houseboat whipped by dark waves. The mummified dowager at my side slowly gained ground, as her long cotton shawls began to unwind.

It had taken me a few weeks to get the hang of this. On the long afternoons when the air fattens to water in Addis Ababa, the city’s animal life—goats, sheep, donkeys, stray dogs, woodpeckers, catbirds, swallows—fall asleep standing up in crevices and bowers, or with their heads bowed in the deluge. That is when I long to trudge up the stairs to my room in the tidy Yilma Hotel, peel off my muddy shoes and socks, drink from a liter of bottled water, fall across the bed with Bahru Zewde’s History of Modern Ethiopia, and sleep while the tall, sheer curtains drift into the room full of the scent and weight of rain.

But I was stuffed into a love seat in Haregewoin’s common room and there was no getting out of it. The group inertia overwhelmed me. “Now?” everyone stirred and asked in bewilderment. “You want to go somewhere now, in this weather?” Some were thinking, I’m sure, “The ferange [white] has to go somewhere now?” My friend and driver, Selamneh Techane (Se-lam-nuh Te-tchen-ay), who was rolled forward with his head resting on his hands, sat up and looked at me with bleary confusion. Every time I tried to stand up, the mater familias beside me sloughed off another layer of shawls.



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